Salvador tem transformado seus rios em esgoto', diz professora da UFBA

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03 abril 2012


G1 conversa com especialistas e faz panorama de três rios da cidade. 
Rio das Pedras, dos Seixos e Lucaia foram tampados para requalificação.

Ingrid Maria Machado
Do G1 BA

Salvador possui 12 bacias hidrográficas que cortam a cidade. Três delas são alvos de ações desrespeitosas pela prefeitura, é o que garantem especialistas em urbanização e meio ambiente da capital. Na data que se comemora o Dia Mundial da Água, o G1 ouviu especialistas para saber como andam esses rios e se a política de urbanização nessas localidades está sendo feita de forma coerente, respeitando o meio ambiente e a sociedade.

Rio das Pedras, que corta o bairro da Boca do Rio e Imbuí, passou pelo processo de temponamento. Hoje em dia, na parte superior há uma estrutura de lazer. Rio continua poluído.
(Foto: Reprodução/Caminho das Águas)

“Não existe uma política urbano-ambiental em Salvador. O que existe são alguns órgãos que ficam responsáveis pela gestão ambiental e que possuem até profissionais competentes, mas não há de fato, uma política de governo voltada para a questão ambiental. Todo o processo de drenagem dos rios da cidade não deve ser confundido com esgoto. O que deveria acontecer em Salvador é a reciclagem dos rios adequando-os às paisagens urbanas”, é o que diz o professor de projetos da faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Neilton Dórea.

Salvador não tem o que comemorar no dia das águas. O quadro de comprometimento das nossas águas é muito grande por conta do lançamento de esgoto em nossos rios"Beth Santos

Rio dos Seixos, das Pedras e Lucaia

Em 2008 o rio dos Seixos, que fica localizado entre o Vale do Canela e o Morro do Cristo e possui cerca de 1,5km foi tampado na extensão da avenida Centenário durante uma ‘reforma de requalificação’ do local. O espaço atualmente conta com uma área de lazer para a população com pista de cooper, ciclovia, equipamentos de ginástica e outros campos de lazer. O bairro do Imbuí também passou por uma obra de tamponamento, fechando e escondendo o Rio das Pedras, sendo transformado em uma galeria subterrânea, e que atualmente conta na parte requalificada com área de lazer.

Na avenida Vasco da Gama outra obra está sendo realizada e tampando o rio Lucaia, que se estende ao longo de 1,3 Km da avenida, entre a entrada da Ogunjá e o entroncamento com a avenida Anita Garibaldi. A obra tem investimento de R$ 50 milhões e é realizada em parceria entre a Prefeitura Municipal e o Ministério da Integração Nacional através do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Com relação às obras realizadas, a Secretaria Municipal de Obras Públicas de Salvador (Sucop), responsável pelas reformas feitas pela prefeitura da capital baiana, informou através de nota oficial que “todas as grandes obras de macrodrenagem realizadas nos canais da cidade, têm como intuito solucionar pontos históricos de alagamentos em rios com um estado muito avançado de poluição”. A nota informou ainda que esses projetos são frutos das solicitações da própria população, ficando a Sucop responsável em desenvolver o projeto e executar as obras.

Obras na Avenida Vasco da Gama escondem parte do Rio Lucaia. (Foto: Ingrid Maria Machado)

“Não houve uma discussão aberta com a sociedade. Faço parte do Conselho Comunitário Social e de Segurança do Engenho Velho da Federação e fico sentida porque essa área é mais do que um esgoto, é um rio, que merece ser tratado e limpo por órgãos competentes. As grandes capitais tratam seus rios e não tapam, como está sendo feito aqui em Salvador. Até 1950, pessoas pescavam camarão no Rio Lucaia”, disse Angela Lühning, professora titular da UFBA e diretora da Fundação Pierre Verger.

Ela mora há 24 anos em uma rua transversal a avenida Vasco da Gama. Em 2011 lançou em parceria com Babá PC o livro “Casa de Oxumarê: os cânticos que encantaram Pierre Verger”. No primeiro capítulo da publicação, ela relembra a história do rio Lucaia e sua importância histórica para a comunidade de candomblé. Ela e outros intelectuais e especialistas escreveram uma carta aberta contra a cobertura dos rios de Salvador.

O  professor de projetos, teoria e história e arquitetura da faculdade de Arquitetura da UFBA, Nivaldo Andrade, também é contra o tamponamento dos rios de Salvador. Ele diz que a prefeitura deveria ter feito uma recuperação dos rios, sistema esse que acontece em diversos outros grandes centros urbanos do mundo.

“Eu sou totalmente contra o tamponamento do rio dos Seixos e dos outros na cidade, principalmente pelo uso que foi dado a esse espaço porque a legislação não permite que em vias de alta velocidade as crianças transitem, como é o caso da avenida Centenário, já que carros passam em alta velocidade no local e a prefeitura construiu uma área de lazer para elas. A recuperação dos rios está acontecendo em todas os grandes centros urbanos do mundo e em Salvador está sendo diferente. O que eu acho é que Salvador deve procurar recuperar os seus rios, e não tampá-los e transformá-los em espaços de lazer”, explica.

Caminho das Águas

A professora da Faculdade de Administração da UFBA, Beth Santos é uma das coordenadoras do projeto intitulado Caminho das Águas, que resultou na publicação de um livro em parceira com a Embasa, Conder, Semah, INGA, IMA, Sedham, SMA da Prefeitura Municipal além da Fundação Ondazul.

O projeto analisou 4 bacias e selecionou 60 pontos em Salvador nas quais foram realizadas análise das águas identificando que nesses rios a qualidade das águas é ruim. "Salvador não tem o que comemorar no dia das águas. O quadro de comprometimento das nossas águas é muito grande por conta do lançamento de esgoto em nossos rios. Precisamos fazer muito mais em políticas públicas. Salvador tem transformado seus rios em esgoto. Precisamos urgentemente requalificar a qualidade de nossos rios. Essa é a principal ação pública no que diz respeito às águas", disse a especialista. A pesquisadora informa que a principal fonte de poluição dos nossos rios é o lançamento do esgoto doméstico.

A Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa) realiza por mês 3 mil ligações de imóveis em redes públicas de esgoto. Para a gerente do departamento de rede coletora de Salvador, Roberta Henriques Bessa, esse número de ligação ainda é pequeno. Ela informou ainda que nas áreas onde estão localizados os três rios já existe rede coletora.

"Nessas áreas em que estão situados esses rios já existe uma rede coletora estabelecida. A obrigação de executar a ligação dos imóveis às redes públicas de esgoto é dos proprietários. A Embasa disponibiliza essa rede de esgoto. A rede coletora recebe o esgoto e leva para as áreas de estações de condicionamento prévio, que posteriormente são lançadas em um emissário submarino", comenta Henriques.

Henriques explicou ainda que a ocupação do solo na capital se deu de forma irregular e que as residências são as responsáveis pela poluição dos rios. "A responsabilidade de despoluir os rios é de todos. Principalmente dos órgãos municipais, da Embasa e da população. É preciso que se tenha um controle efetivo do uso e ocupação do solo. É preciso conclamar a população a executar as suas ligações de esgoto", conclui.
Fonte: G1 Globo
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Franklin Oliveira

Técnico em Meio Ambiente, Gestor Ambiental, Consultor Ambiental Autônomo, Auditor Interno de Sistema de Gestão Integrado nas normas ISO 9001:2008, ISO 14001:2004 e OHSAS 18001:2007, atua na elaboração, implementação e acompanhamento de projetos e programas ambientais voltados à sustentabilidade, educação ambiental, impactos ambientais, gestão de riscos ambientais e gerenciamento de resíduos sólidos.

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